Creditômetro

FGC: o que ele garante, o que fica de fora e quem paga a conta

Por Fernando ·

Ilustração plana: pessoa de suéter azul-marinho segura um pote de moedas e observa um prédio de banco inclinado e rachado, do qual caem moedas numa rede verde presa a pequenos bancos, com linha tracejada marcando o limite, sobre fundo creme.

"O FGC garante, então tanto faz o banco." A frase aparece em conversa de família, em vídeo de investimento e em anúncio de corretora. E tem uma parte verdadeira. O Fundo Garantidor de Créditos devolve até R$ 250 mil por pessoa se um banco associado quebrar. Quando o Banco Master foi liquidado, centenas de milhares de pessoas receberam o dinheiro de volta.

O que a frase esconde é o resto da história: o limite, o que fica de fora, o tempo sem acesso ao dinheiro e quem paga a conta dessa proteção. Vale conhecer cada parte antes de escolher um CDB só porque ele paga mais.

O que é o FGC e o que ele cobre

O FGC é uma entidade privada, sem fins lucrativos, criada em 1995. Ele não é do governo e não usa dinheiro de imposto. As regras de funcionamento, porém, são aprovadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), o órgão que regula o sistema financeiro.

A garantia entra em cena quando o Banco Central decreta a intervenção ou a liquidação de uma instituição associada. Liquidação é o fechamento do banco: um liquidante assume, vende o que der e paga os credores.

Segundo o próprio FGC, estão cobertos, entre outros:

  • conta corrente, conta salário e poupança;
  • CDB e RDB;
  • LCI, LCA e LCD;
  • letras de câmbio (LC) e letras hipotecárias (LH).

E ficam de fora:

  • títulos do Tesouro Direto (a garantia deles é do próprio Tesouro Nacional, não do FGC);
  • fundos de investimento, inclusive os de renda fixa;
  • debêntures, CRI e CRA;
  • letras financeiras (LF), LIG e títulos de capitalização.

Ou seja, "renda fixa" não é sinônimo de "coberto pelo FGC". O nome do produto importa.

Os limites: R$ 250 mil e R$ 1 milhão

O regulamento do FGC traz dois números que convém decorar.

Até R$ 250 mil por CPF, por instituição ou conglomerado. Conglomerado é o grupo de bancos que pertencem ao mesmo dono. Se você tem R$ 150 mil num banco e R$ 150 mil numa financeira do mesmo grupo, a garantia é de R$ 250 mil no total, não de R$ 300 mil. Quando um banco compra outro, há uma regra de transição para as aplicações já feitas, mas, depois dela, tudo passa a ser somado.

Até R$ 1 milhão por CPF a cada quatro anos, somando todas as quebras nesse período. A regra vale para aplicações feitas a partir de 22 de dezembro de 2017.

Em conta conjunta, o limite de R$ 250 mil é dividido entre os titulares. Dois titulares não somam R$ 500 mil de cobertura na mesma conta.

A cena: o Seu Antônio e o CDB que pagava mais

Vamos ao exemplo mais simples possível. O Seu Antônio tem R$ 80 mil guardados (valores ilustrativos). O banco grande onde ele tem conta oferece um CDB que rende 100% do CDI, a taxa de referência entre bancos, que anda perto da Selic, hoje em 13,75% ao ano segundo o Banco Central. Um banco pequeno oferece bem mais que isso pelo mesmo prazo.

Ele pensa: "Os dois têm FGC. Se der errado, eu recebo do mesmo jeito. Então fico com o que paga mais."

A conta parece fechada. Mas ela trata a garantia como se fosse uma nota de qualidade do banco. Não é. A garantia é um seguro. E seguro serve para o dia em que a coisa dá errado, não para dizer que ela não vai dar.

Henry Hazlitt insistia que todo crédito é também uma dívida. O CDB é exatamente isso: um empréstimo que você faz ao banco. Quando um banco paga muito mais que os outros para pegar dinheiro emprestado, a pergunta honesta é a mesma que qualquer um faria a um vizinho que oferece juro alto: por que ele precisa tanto desse dinheiro?

O que não se vê no dia da quebra

O dinheiro fica parado. O Banco Central decretou a liquidação do Banco Master em 18 de novembro de 2025. O FGC começou a receber os pedidos de pagamento dos credores em 17 de janeiro de 2026, depois que o liquidante consolidou a lista. Foram quase dois meses sem acesso ao dinheiro. Para quem tinha ali a reserva de emergência, isso pesa.

O rendimento para na data da liquidação. Pelo regulamento, a partir do decreto o valor garantido deixa de ser corrigido pelas taxas do contrato. Aquele juro maior que atraiu o Seu Antônio deixa de correr justamente quando o banco fecha.

O que passa do limite vira fila. O que excede R$ 250 mil por conglomerado entra no processo de liquidação, sem data nem garantia de recebimento.

Golpistas aproveitam a confusão. O FGC avisa que não cobra taxa para pagar a garantia, não usa intermediários e não faz contato por WhatsApp ou SMS. O pedido é feito pelo aplicativo oficial do fundo.

Quem paga a rede de proteção

Aqui está a parte que quase nunca aparece. O FGC é sustentado por contribuições mensais dos bancos associados, calculadas sobre o saldo das aplicações cobertas, e pelo rendimento das próprias reservas.

O caso Master custou caro. Pelas contas do FGC, a garantia somou R$ 40,6 bilhões para cerca de 800 mil credores do conglomerado. Em março de 2026, o fundo informou que os bancos associados antecipariam 60 meses de contribuições, uma recomposição de caixa estimada em R$ 32,5 bilhões.

Repare em quem entra nessa conta. Bancos que nunca venderam CDB acima do mercado também pagaram, porque a contribuição é de todos os associados. E banco não tira dinheiro do nada. No longo prazo, um custo maior para operar tende a aparecer no juro do empréstimo, na tarifa ou na remuneração que ele oferece a quem aplica.

É o Homem Esquecido da história: o cliente do banco prudente, que nunca comprou o CDB que pagava mais e mesmo assim ajuda a pagar a rede que protegeu quem comprou.

Existe ainda um efeito que se arrasta no tempo. Se o investidor olha só a taxa, porque "tem FGC", um banco frágil consegue captar dinheiro com mais facilidade do que conseguiria sem a garantia. Ele paga um pouco mais, e a rede cobre o resto. A proteção que deveria ser para o pequeno poupador acaba servindo também de vitrine para quem assume riscos maiores.

Quem perderia sem o FGC

É preciso ser justo com a garantia. Sem ela, o aposentado com R$ 30 mil num CDB entraria na mesma fila dos grandes credores e talvez recebesse uma fração depois de anos. O FGC existe para essa pessoa, e no caso Master funcionou para ela. Segundo o fundo, depois de concluída a solicitação no aplicativo, o pagamento cai em até dois dias úteis.

A rede funciona. O erro está em tratá-la como chão firme.

Como usar o FGC a seu favor

  1. Fique abaixo de R$ 250 mil por conglomerado, já somando os juros que a aplicação vai acumular até o vencimento.
  2. Descubra o grupo do banco. Antes de aplicar, veja se a instituição pertence a um conglomerado onde você já tem dinheiro.
  3. Confira o produto. CDB, LCI e LCA têm FGC. Debênture, CRI, CRA e fundo não têm.
  4. Não deixe a reserva de emergência inteira num banco só, muito menos no que paga mais. Dinheiro de emergência precisa estar disponível quando a emergência chega, não dois meses depois.
  5. Desconfie do juro muito acima do mercado. Ele pode ser uma oferta legítima. Mas, se for, existe um motivo, e vale saber qual é.

A lição

O FGC é um seguro com limite, prazo e preço. Ele devolve o seu dinheiro até R$ 250 mil, mas não devolve o tempo nem o rendimento perdido, e a conta é dividida entre todos os bancos associados e, no fim, entre os clientes deles. Antes de escolher um CDB porque "tem FGC", faça a pergunta que a garantia não responde: por que esse banco está pagando tanto para ficar com o meu dinheiro?

Perguntas frequentes

Quanto o FGC garante?

Até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada instituição ou conglomerado financeiro, somando todas as aplicações cobertas. Há também um teto de R$ 1 milhão por pessoa a cada quatro anos, para o caso de mais de um banco quebrar nesse período.

Quais investimentos têm FGC?

Conta corrente, conta salário, poupança, CDB, RDB, LCI, LCA, LCD, letras de câmbio e letras hipotecárias, entre outros. Tesouro Direto, fundos de investimento, debêntures, CRI, CRA e letras financeiras não têm a garantia do FGC.

Quanto tempo o FGC leva para pagar?

Depende da quebra. No caso do Banco Master, liquidado em 18 de novembro de 2025, os pedidos começaram a ser recebidos em 17 de janeiro de 2026. Depois de concluída a solicitação no aplicativo, o FGC informa que paga em até dois dias úteis.

O FGC paga os juros prometidos pelo CDB?

Paga o valor aplicado mais os rendimentos acumulados até a data da liquidação, dentro do limite de R$ 250 mil. A partir do decreto, o valor deixa de ser corrigido pelas taxas do contrato.

Quem paga o FGC?

Os bancos e financeiras associados, com contribuições mensais calculadas sobre o saldo das aplicações cobertas, além do rendimento das reservas do fundo. O FGC é uma entidade privada e não usa dinheiro de imposto.

Fontes

  1. FGC, Sobre a garantia: produtos garantidos e não garantidos, limite de R$ 250 mil por CPF/CNPJ e conglomerado, teto de R$ 1 milhão a cada 4 anos, conta conjunta, consultado em 30 de outubro de 2026
  2. Regulamento do FGC (Anexo II à Resolução CMN nº 4.222/2013), art. 2º, §§ 2º, 3º, 4º, 7º e 11, consultado em 30 de outubro de 2026
  3. Resolução CMN nº 4.222, de 23 de maio de 2013 (estatuto e regulamento do FGC; contribuição mensal das associadas sobre os saldos garantidos), consultado em 30 de outubro de 2026
  4. FGC, comunicado de 17/01/2026: início do pagamento aos credores de Banco Master, Master de Investimento e Letsbank (cerca de 800 mil credores, R$ 40,6 bilhões), consultado em 30 de outubro de 2026
  5. FGC, comunicado de 05/03/2026: antecipação de 60 meses de contribuições ordinárias (R$ 32,5 bilhões) e balanço dos pagamentos, consultado em 30 de outubro de 2026
  6. Banco Central do Brasil, Ato do Presidente nº 1.369, de 18/11/2025: liquidação extrajudicial do Banco Master S.A., consultado em 30 de outubro de 2026
  7. Banco Central do Brasil, SGS 432: meta Selic definida pelo Copom (13,75% a.a.), consultado em 30 de outubro de 2026
  8. Banco Central do Brasil, SGS 4389: taxa CDI anualizada (13,65% a.a. em 29/10/2026), consultado em 30 de outubro de 2026
  9. g1, 17/01/2026: valores acima do limite do FGC seguem no processo de liquidação do Banco Master, consultado em 30 de outubro de 2026